Galerias do Palais-Royal – modelo das passagens cobertas de Paris
June 11, 2019
Depois de conhecer a história e o interior do Palais-Royal, é hora de passearmos por suas galerias. Abrigando lojas e galerias de arte, é uma visita diferente para quem está em Paris.
Como vimos no texto sobre a história do palácio, Louis-Philippe-Joseph de Orléans, conhecido como Philippe Égalité, proprietário do lugar no século XVIII, tinha um estilo de vida acima dos seus recursos e estava com dívidas. Em 1781, ele se lança na especulação imobiliária e resolve lotear uma parte do seu terreno, perto do jardim do palácio. Ele contrata o arquiteto Victor Louis para construir ali imóveis que ele esperava alugar.
O arquiteto, então, desenha um grande conjunto formado por casas e galerias interiores, com 160 arcadas. As casas, com três ou quatro arcadas, são construídas em vários níveis, sendo o térreo ocupado por lojas e os andares superiores por residências. É o conjunto que conhecemos hoje.
Três galerias são terminadas. Uma quarta galeria seria construída, separando o Palais do jardim. Porém, por falta de dinheiro, isso não é possível. Então, em 1786, galerias de madeira são erguidas no lugar da quarta galeria em pedra. A ideia já era de que fosse provisória. Hoje, vários historiadores dizem que essas galerias de madeira são as ancestrais das passagens cobertas parisienses, pois foram as primeiras a apresentar um caminho coberto com lojas, ideal para passeios.
Apesar do material – madeira -, as galerias improvisadas têm um certo prestígio. Seu proprietário, o duque d’Orléans, faz parte da família real. As entradas são guardadas por funcionários que levam no uniforme o símbolo da monarquia. Mas essas condições restritas de acesso não atrapalham a liberdade de comércio e nem de expressão, pois, por ser uma propriedade da família real, a polícia não entrava ali.
Então, no lugar vários tipos de comércio são criados. Considerando todo o conjunto, as galerias de pedra e as de madeira, havia cerca de 300 lojas. Luxo, moda, gastronomia, gabinetes de leitura, cafés e restaurantes. Fora os espetáculos, como os shows teatrais, de marionetes, de música, etc: havia diversão para todos os gostos. A animação reinava ali até de madrugada. E, exatamente, por ser um lugar sem a fiscalização da polícia, até os prazeres mais ilícitos, como o jogo e a prostituição, eram permitidos.
Toda uma gama de personagens circulava pelas Galeries: intelectuais, mundanos, parisienses e estrangeiros. Balzac, em As Ilusões Perdidas (1837-1843), descreve as galerias: “O primeiro andar era ocupado pelos cafés, os gabinetes de leitura, as bancas de jogo, e os andares superiores por indivíduos de todos os tipos, masculinos e femininos”. E ainda completa: “O que Paris é para a França, o Palais-Royal é para Paris”.
Pouco antes da Revolução Francesa, as galerias se tornam um dos centros da vida política. Foi ali que Camille Desmoulins incitou a multidão a se rebelar, em julho de 1789. O duque d’Orléans, já chamado de Philippe Égalité, encoraja os revolucionários. E mesmo depois de 1793, quando ele é guilhotinado e o Palais-Royal vira propriedade nacional, as galerias continuam fervilhando de animação.
Entre 1815 e 1817, o local faz muito sucesso entre os estrangeiros, que ocupavam Paris após a derrota de Napoleão I. As galerias abrigavam um comércio de luxo, composto por lojas de moda, porcelana, cristais, joalheiros, alfaiates, etc; além de cafés e restaurantes. E os jogos e a prostituição continuavam a bater ponto ali. Inclusive, as prostitutas, quando iam para as galerias do palácio, diziam que iam “faire leur Palais” (fazer seu palácio).
Com o tempo, as galerias de madeira foram se degradando, ao ponto de serem chamadas pelos parisienses de “camp des Tartares” (acampamento de tártaros). Em 1828, é decidido que elas seriam demolidas. No ano seguinte, uma galeria de pedra, a Galerie d’Orléans, é construída no lugar, ligando as arcadas de Valois e Montpensier e separando o jardim do palácio. Assim, apesar de serem provisórias, as galerias de madeira sobrevivem por 42 anos.
Com 65 metros de comprimento e 8 de largura, a Galerie d’Orléans é luxuosa, repleta de espelhos e mármores. Uma verrière leve e larga cobria quase todo o lugar. Nos cantos, o telhado era arrumado em jardim suspenso e se ligava aos apartamentos do duque de Orléans. Ela comportava 24 lojas espaçosas.
Porém, a nova galeria não vai igualar a animação das galerias de madeira. Balzac mesmo faz alusão a isso, ainda em As Ilusões Perdidas: “Arrependimentos imensos e unânimes acompanharam a queda destes ignóbeis pedaços de madeira”. Apesar da construção luxuosa, o número de visitantes vai, aos poucos, caindo.
Em 1837, há 355 comerciantes repartidos em todas as galerias que bordam o jardim: a Galerie de Montpensier, de Beaujolais e de Valois. Sem contar as outras galerias menores do lugar: a de Chartres, de Nemours e de Orléans (a que ficou no lugar das de madeira). Nesta última, havia livrarias, lojas de roupas, acessórios e sapatos, gabinetes de leitura e um café, o Café d’Orléans.
Alguns anos antes, o decreto moralizador do rei Louis-Philippe, proprietário do Palais-Royal, proibindo o jogo e a prostituição nas galerias, e sua partida para o Palais des Tuileries já haviam provocado a redução do público no lugar. Junta-se a isso a abertura das passagens cobertas, como, por exemplo, a Galerie Vivienne. Mas, alguns anos depois, com a reforma de Paris realizada pelo prefeito Eugène Haussmann viria o tiro final: a moda passou a ser passear e comprar nos novos bulevares e praças construídos ou reformados pelo administrador. Um exemplo disso é a mudança das joalherias para a Place Vendôme.
Em 1935, a Galerie d’Orléans, que ficava no lugar das galerias de madeira, é destruída. Somente as colunas ficam em pé e são as que vemos atualmente, separando o jardim do palácio. Hoje, só sobraram as galerias do projeto de Victor Louis (final do século XVIII). Elas atraem vários tipos de lojas, como de criadores e estilistas de moda, de artesanato, de doces, de brinquedos, galeria de arte, cafés e restaurantes. Se no passado as Galeries do Palais-Royal e os jardins eram apreciados por sua animação, agora eles são procurados pela calma que proporcionam.
O que sobrou da Galerie d’Orléans
Curiosidades
As galerias e jardins do Palais-Royal eram frequentados por Gabrielle Colette e Jean Cocteau. A escritora morava no número 9 da rue de Beaujolais e ele ali perto, em um lugar tão pequeno que chamava de “sua caixa de sapatos”.
No número 17 da Galerie de Montpensier havia o Gabinete de Figuras de Cera de Philippe Curtius, instalado ali logo depois da criação da galeria. É o primeiro lugar a expor personagens históricos de cera em tamanho natural. A sobrinha de Curtius, Marie Grosholtz, era uma escultora de talento e o ajudava na realização das obras. Ela se casa com François Tussaud. Herdeira da coleção do tio, continuou seu trabalho. Anos mais tarde, se muda para Londres, onde expõe suas obras e acaba abrindo um museu na capital inglesa. É o museu Madame Tussauds, um dos mais populares da cidade.
Na mesma galeria, nos números 57 a 60, funcionava o Café de Foy. Dizem que foi ali, em pé em uma cadeira, que Camille Desmoulins atiçou a população a se rebelar, em 13 de julho de 1789. Mal sabia ele que, anos depois, seria guilhotinado pela Revolução que ajudou a criar.
Na Galerie de Beaujolais, vemos o lendário restaurante Le Grand Véfour. Ele foi criado em 1784 por um limonadeiro, o senhor Aubertot, com o nome de Café de Chartres. Em 1820, Jean de Véfour, antigo cozinheiro de Philippe Égalité, compra o lugar. Ele só ficou ali três anos, mas o nome foi conservado. Durante todo o século XIX, toda a elite política e cultural frequentou o restaurante. Dizem, inclusive, que Victor Hugo sempre comia a mesma coisa ali: sopa, peito de carneiro e feijões brancos. O lugar é classificado como Monumento Histórico.
As Galeries do Palais-Royal abrigam também o Théâtre du Palais-Royal. Quando o Palais-Royal foi construído, uma sala de teatro ficava em uma das alas do palácio. Transformada em Ópera, a sala pega fogo em 1763 e em 1781. Então, quando as galerias são construídas, um novo teatro é criado em 1784, destinado a espetáculos de marionetes. Ele se chama, então, Théâtre des Variétés. Depois de passar por vários proprietários, o local se torna, em 1812, o Café de la Paix. A aventura não dura muito e o lugar fecha em 1820. Dez anos depois, Joseph-Jean Contat-Desfontaines, ator, obtém autorização para usar o antigo teatro. Ele, então, contrata o arquiteto Louis Regnier de Guerchy para reconstruir a sala. Assim, o Théâtre du Palais-Royal é inaugurado em 6 de junho de 1831. Em 1880, o lugar é transformado pelo arquiteto Paul Sédille. Atualmente, a sala de espetáculos comporta 716 lugares.
Galerias do Palais-Royal
2, Place de Colette, 6, rue Montpensier e 15, rue de Valois
75001 Paris
Metrô: Palais-Royal-Musée-du-Louvre, linhas 1 e 7.
Horários: de 1 de outubro a 31 de março – aberto todos os dias, das 8h às 20h30. De 1 de abril a 30 de setembro – aberto todos os dias, das 8h às 22h30.
Gratuito.
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Sou de São Paulo e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.
Sou apaixonada pela arquitetura de Paris, mas não conheço esta galeria. Depois desta verdadeira aula de história, já inclui na lista de lugares a explorar na próxima visita à cidade. Obrigada pelas dicas!
Comentários (6)
Silvia Miraldo
June 18, 2019 at 12:18 pmSou apaixonada pela arquitetura de Paris, mas não conheço esta galeria. Depois desta verdadeira aula de história, já inclui na lista de lugares a explorar na próxima visita à cidade. Obrigada pelas dicas!
Carolina
June 18, 2019 at 12:32 pmAdorei o post! Já conheço e adorei ler mais um pouco sobre as galerias. Apaixonante andar por elas, dá uma grande tranquilidade.
Paula
June 19, 2019 at 11:04 amQuando morava em Paris, tinha uma loja de artigos culinários ai que era uma perdição, sempre comprava um livro ou alguma coisa.
Maria
June 21, 2019 at 6:05 amSou apaixonada por arquitetura e por Paris! Viajei no seu texto e na riqueza de detalhes! Parabéns!!
Mariana
June 21, 2019 at 10:39 amMuito interessante a história da das Galeries do Palais-Royal! Fora que a arquitetura parisiense é belíssima! Excelente artigo.
Direto de Paris - Jornalismo em Paris
July 9, 2019 at 3:58 pm[…] que acontecem este ano (2019) no dias 21 e 22 de setembro. No próximo texto, vamos visitar as galerias que cercam o jardim do […]