Ele fica em um dos bairros mais badalados de Paris. A região é repleta de restaurantes, cafés, bares e pubs charmosos, diversão para os turistas e até mesmo para os moradores. A rua onde está instalado é discreta, quase uma viela e com uma iluminação tão difusa quanto o próprio restaurante. E apesar da sua fachada ser larga e com algumas mesas na frente, se você passar distraído não vai vê-lo, pois o Dans le Noir reserva suas atrações lá dentro.
Quando entramos, a impressão que temos é que é um bar como outro qualquer. O simpático recepcionista nos atende, confere as reservas, como acontece em quase todos os restaurantes. Ele nos convida a tomar um aperitivo enquanto esperamos. Deve-se chegar com, no mínimo, quinze minutos de antecedência da hora reservada. Você pode tomar seu drinque ali encostado no balcão do bar ou descer as escadas à direita, ir para o lounge, sentar-se e esperar confortavelmente a sua vez. No calor, as mesas do lado de fora, na rua, servem bem como uma agradável espera, mas em pleno inverno, sentar-se ali é impensável.
Eis que chega a hora e o recepcionista nos chama. Ele pede que guardemos todas as nossas coisas em um armário com chaves, como aqueles de academia, e nos explica todo o procedimento para jantar naquele restaurante que não é como outro qualquer. E aí é que embarcamos para a aventura.
Na verdade, o Dans le Noir é uma experiência única. Criado em 14 de julho de 2004, dia do mais importante feriado francês, ele é o primeiro restaurante onde você come sem enxergar absolutamente nada. Não é exagero! Você não enxerga nada, nada mesmo.
O simpático barman, um dos poucos funcionários que não é deficiente visual
Segundo Eduard De Broglie, um dos fundadores do lugar, no Dans le Noir os visitantes podem comer e beber na escuridão total, o que lhes dá uma nova percepção de gosto e odor. “A proposta do restaurante é também reavaliar a percepção das pessoas em relação ao outro e também em relação a como é a vida de quem não pode ver”, diz De Broglie. Hoje, há filiais Dans le Noir em cidades como Londres, Nova York, Barcelona e outras. Só no de Paris, são cerca de 35 mil clientes por ano.
Cada garçon-guia tem sua foto estampada no restaurante
E como o salão do restaurante é todo escuro, para entrar lá precisamos da ajuda dos garçons, que são todos cegos. O Dans le Noir emprega dez garçons, entre homens e mulheres. Como é o caso de Sarah, que possui uma deficiência visual congênita. A simpática francesa trabalha no lugar praticamente desde o começo, há seis anos, e não esconde a sua satisfação em poder desmistificar um pouco o mundo em que vive: “Meu trabalho consiste em guiar as pessoas até suas mesas, servi-las e ajudá-las em tudo o que for possível. Também conversamos muito. Todo mundo que vem ao restaurante se sai super bem e se diverte bastante com a experiência. Adoro trabalhar aqui”, conta a garçonete.
A simpática Sarah
Além de apurar o olfato e o paladar, jantar no escuro pode também melhorar nossa audição. É que o Dans le Noir promove, ao longo do mês, diversas atrações musicais, como os Cabaraokês nas terças – onde um cantor ou cantora, cego, promove um show com clássicos da canção francesa. Jantar no escuro, na companhia das canções de Piaf, Aznavour, Dalida e companhia é realmente um momento inesquecível.
Sarah preparando um grupo para entrar na escuridão
Escutamos atentamente as explicações do recepcionista. Ele pergunta a cada um quais as restrições alimentares. Isso porque no Dans le Noir o menu também é uma surpresa. Nós falamos apenas o que não gostamos ou não podemos comer e saberemos que aqueles ingredientes o jantar não vai ter. Mas temos que adivinhar, conforme comemos, o que são a entrada, o prato e a sobremesa (a opção de menu que escolhemos).
O pessoal fica apreensivo e enche Sarah de perguntas
Enfim, nos arrumamos em fila diante da entrada do salão escuro e Sarah aparece diante de nós. Ela se apresenta, com toda a sua simpatia, termina de explicar o procedimento. Depois pede que cada um segure no ombro da pessoa à frente e que a primeira pessoa da fila se segure nela. Ela nos guia e, logo ao entrarmos, o medo vai embora e uma gostosa excitação toma conta do grupo. Sem problemas, sentamos à mesa, sem enxergar nada.
E, finalmente, nosso grupo entra. A entrada na área escura é feita em grupos.
E enquanto esperamos os pratos, conversamos com as pessoas ao redor, até com desconhecidos, que, na escuridão, não sabemos se estão na nossa mesa ou em outra. Enfim, é aí que começa uma das refeições mais gostosas que fiz na minha vida. O cardápio? Não vou falar, você terá que vir até o Dans le Noir se quiser descobrir.
Dans le Noir?
51 rue Quincampoix – 75004 Paris – tel : 01 42 77 98 04
Horários: Sábados – almoço 12h30/ Domingos – brunch 12h30
Jantar – todas as noites, dois serviços: 19h30 e 21h45 (sempre reservar antes)
Preços: de 43 a 85 euros (ver os horários e opções de cada um) http://www.danslenoir.com/
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Sou de São Paulo e moro em Paris desde 2010. Sou jornalista, formada pela Cásper Líbero. Aqui na França, me formei em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X. Trabalho em todas essas áreas e também faço tradução, mas meu projeto mais importante é o Direto de Paris. Amo viajar, escrever, conhecer pessoas e ouvir histórias. Ah, e também sou louca por livros e animais.
Re, o David me contou sobre a aventura de vocês neste restaurante, mas no dia, esqueci de perguntar o endereço…e é bem localizado! Deixarei a experiência pra próxima vez que voltar…..
deve ser uma experiência mesmo única, mas eu ainda preciso de um pouco de mudanças pessoais para ir! Já não me sinto bem comendo à lus de velas, umagina no escuro absoluto!!!
Pois é, Milena, no começo tb fiquei com medo, pq tem certas coisas que não como. Mas, como eles perguntam, depois fiquei sossegada… Quanto ao escuro, depois acostumei 😀
Comentários (10)
Juliana Pereira
May 1, 2012 at 11:48 pmRê! Da próxima vez que eu for a Paris, te arrasto de volta a esse restaurante ! Adorei a matéria! Me deu vontade de conhecer essa maluquice!
Renata Inforzato
May 1, 2012 at 11:54 pmE vamos no Spa também, Ju!
Sylvia Feder
May 2, 2012 at 4:22 pmParabéns pelo artigo Renata ! muito boa escolha e dá vontade de sair correndo jantar “dans le noir”.
Renata Inforzato
May 2, 2012 at 4:53 pmObrigadão, Sylvia querida!
Gislaine
May 3, 2012 at 11:15 amRe, o David me contou sobre a aventura de vocês neste restaurante, mas no dia, esqueci de perguntar o endereço…e é bem localizado! Deixarei a experiência pra próxima vez que voltar…..
Renata Inforzato
May 3, 2012 at 7:01 pmÉ interessante, Gi, vc vai gostar! Pode ser uma boa pedida pra fechar um dia de passeios pelo Marais. Beijão!!!!
Milena F.
May 6, 2012 at 7:52 pmdeve ser uma experiência mesmo única, mas eu ainda preciso de um pouco de mudanças pessoais para ir! Já não me sinto bem comendo à lus de velas, umagina no escuro absoluto!!!
Renata Inforzato
May 6, 2012 at 10:32 pmPois é, Milena, no começo tb fiquei com medo, pq tem certas coisas que não como. Mas, como eles perguntam, depois fiquei sossegada… Quanto ao escuro, depois acostumei 😀
Livia Martins
January 7, 2013 at 8:10 pmJa tinha ouvido falar desse restaurante mas não conhecia ninguem que tinha vivido realmente esta experiência. Fiquei super curiosa…coisas de Paris 🙂
Renata Inforzato
January 8, 2013 at 4:51 pmMais pra frente, vamos juntas! Você vai adorar. Um beijão e obrigada!